Antonio Prata nasceu em São Paulo, em 1977. É escritor, agnóstico, corintiano,
míope,
meio intelectual, meio de esquerda e publica no caderno Metrópole.
Falei assim, sem muita pretensão: “o azeite é uma das dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Só queria dar uma floreada na frase, contornar o monótono “adoro azeite”, quase tão chato como um “nossa, esfriou, né” em papinho de elevador. Acontece que a Dani, namorada do meu irmão, quis saber: “quais são as outras no-ve?”
Eu não tinha a menor idéia. Era sábado e estávamos no Bar da Dida: eu, Pedro (meu irmão), Chico, Paula, Mauro e a já citada Daniela. Começamos então, todos juntos, a fazer a lista.
No começo a coisa foi fácil – amor, sexo, amizade... – mas lá pelo quinto item começaram as divergências. Chico sugeriu Beatles. Daniela preferia samba. Mauro indignou-se: “a gente vai pôr música antes da comida? E a cebola? Eu não vivo sem cebola”. “Ah, eu troco cebola por Blackbird na boa!”, rebateu Chico. Uma certa animosidade surgiu, entre a turma dos tímpanos e a das papilas gustativas. Po-nhamos os dois.
Recapitulei: azeite, amor, sexo, amizade, Beatles – “ou samba!” --, lembrou Dani –, sim, ou samba, e cebola. Achei ter ouvido, num murmúrio, “prefiro alho”, mas resolvi passar batido. Sugeri mar. Não lembro quem falou que era mais cachoeira – talvez o mesmo do alho. Sei é que foi espancado por argumentos os mais diversos, da poesia de Fernando Pessoa ao sul da Bahia, tendo finalmente que dobrar-se à supremacia da água salgada diante do argumento de que era o “berço da vida”. Consenso.
Aproveitando um silêncio, Pedro, que até então estava quieto, tentou emplacar futebol. Daniela ficou brava. “Só pensa em futebol, né?”. De cara amarrada, saiu-se com “eu prefiro lua”. Climão. Foi aí que chegou o Paulinho e, ao ser colocado à par da discussão, veio com: “dá pra trocar o azeite por manteiga?”. Perdi totalmente a esperança de fecharmos a lista.
Passamos o resto da noite em acalorados embates entre camarão ou cafuné, dormir ou Cartola, festa ou Amarcord e, de tempos em tempos, Beatles ou cebola. Voltei para casa mais cético sobre o futuro da humanidade. Se cinco amigos numa mesa de bar não conseguem chegar a uma lista dos top ten da vida na Terra, o que dizer sobre o Oriente Médio?
(“Ou a violência no Rio?”, diz o leitor de óculos. “Sou mais aquecimento global”, pensa a mocinha de verde. “Por que não o aborto”, sugere a senhora engajada, sentada no banco da praça...).
* Texto publicado no Estadão.

Assim é servida a equilibrada combinação de salmão, cream cheese e folhas de endívia. Perfeito depois de um dia de trabalho ou antes de uma noite de farra...